GENTE QUE FAZ: Economia Viva Entrevista Rodrigues - Artista de Rua

Data de Publicação: 
01/11/2011 - 01:53

 

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Rodrigues é um registro da memória da cidade de São Paulo, um artista militante que ajuda na desconstrução de uma Paulista reta e luminosa, traz para a gente que passa um momento de reflexão e atitude.

 

 Av. Paulista, 25 de julho de 2011  

 Presentes: Maira Miller Ferrari e Ivan Moraes

Ivan Moraes estava transitando pelas ruas desertas, de um domingo, na região da Praça da Sé e de repente ouviu a sua música (disse “minha música”), diante aquele vazio parou e procurou de onde vinha aquele som instigante: era do Rodrigues tocando Bolero de Ravel com seu arcodeão (por vezes também chamado de sanfona ou ainda gaita é um instrumento musical aerofone de origem alemã, composto por um fole, um diapasão e duas caixas harmônicas de madeira). Logo depois começaram a conversar sobre política (Rodrigues que introduziu o tema). Ivan sentiu afinidade e grande admiração por Rodrigues e hoje estamos aqui neste bate-papo, através do Portal Economia Viva, para nos aproximarmos um pouco mais deste artista de rua tão peculiar. 

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José Raimundo Rodrigues, ou melhor, Rodrigues nasceu dia 14 de agosto de 1961 e viveu até os treze anos de idade em Pesqueiras – PE. Foi na infância que conheceu a música através do seu Pai que era um grande arcodeonista. Rodrigues relatou que a infância naquela época e lugar era bastante rude, pouca brincadeira, “a criança pescava e pegava passarinho para comer, não para brincar”. Disse que lá, o sexo é introduzido logo na infância e que quando chegou em São Paulo aos 13 anos de idade as brincadeiras que os meninos faziam já não faziam sentido para ele, tinha conhecido o sexo.

Veio com a mãe e com os irmãos no ano de 74 sem saber que os pais tinham separado, logo que chegou começou a trabalhar e ganhar meio salário mínimo, neste momento ele parou com a música durante 25 anos.

Neste intervalo foi comerciante, depois de uma crise econômica que acabou com o negócio que ele desenvolvia, teve que aceitar o convite de trabalhar na horta pública existente durante o mandato de Marta Suplicy, diz que tem vergonha deste emprego...

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Rodrigues se envolveu com o partido dos trabalhadores e critica a sociedade capitalista:

 

Rodrigues - “Vi que a sociedade se divide em dois grupos básicos o conservador e o progressista, minha maturidade da vida, da visão da política, como ela vem inicialmente eu não sei, é...São Paulo me transformou, eu vou no cinema Belas Artes e vejo o documentário de Silvio Tendler, meu patrão era um funcionalista que lia Karl Marx na minha frente, eu começo a ler livros também, tem toda uma transformação aí...”

 

Ivan – “Você é um marxista? Ou simpatizante marxista? Estou falando isso porque eu...Quem sou eu? Não quero influenciar sua opinião, eu não sou, não gosto, não me sinto bem em dizer que sou um marxista, visto que é muita pretensão entender todo arcabouço marxista, mas eu sou um simpatizante marxista, e você?”

 

Rodrigues – “Eu sou simpatizante de primeira onda, agora, a política é uma obra não somente marxista, todo dia tem um adendo, se Marx tivesse vivo algumas coisas seriam acrescentadas, a figura do grande banqueiro dono dos meios de produção, uma família dominante, isso vai ser coisa de museu,os homens reúnem capital para empreender negócios... Em primeira ordem eu sou um marxista, um simpatizante, mas eu não posso jogar nas costas do Marx a qualitação de algumas coisas, mas eu não vou negar de maneira nenhuma os primórdios socialista, dessa luta, né?”

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Ivan – “Legal, bom saber esta identidade biológica, esta identidade política, é muito bom saber isso, mas uma coisa que...é legal isso que você está pontuando..Como posso dizer... O Fio condutor, eu tenho muita curiosidade de saber e a Maíra também através do pouco que passei para ela, como e por que você faz isso, aliando a arte e a abordagem com as pessoas, elas pararam para te ouvir?”

 

Rodrigues – “Param, as pessoas vão passando e em geral tem pessoas trocando números uns com os outros e quando os anos vão passando e há uma substância naquele discurso, naquela fala, então há uma devolutiva disso, vindo retomar os questionamentos, isso é uma coisa que eu já tenho,aqui a minha preocupação é jamais querer agenciar a causa porque é minha causa, isso vai me cacifar para alguma coisa para um cargo. Por isso que eu não tenho respaldo e nem nenhuma força política para quando eu for conversar com aquele que não é partidarizado e não se importa com política entre aspas, todos se importam, não? para que ele não se sinta como um objeto que eu estaria manejando, manipulando ele. Eu sou um desprotegido”

 

Maíra – “Como você faz política, é através das escolhas das músicas, é o fato de estar na rua tocando..?”

 

Rodrigues – “Olha, quero deixar bem claro duas coisas, a música não é uma muleta para eu fazer política, a música é a expressão da minha vida até o último segundo da existência. Agora o homem que eu me imagino ser não pode deixar nenhum dia sem refletir a questão política. O que mantém minha atividade minha atividade e minha independência? A atividade gera uma subsistência básica e do outro lado eu posso livremente, nos processos eleitorais, ficar dizendo o que penso por cinco ou seis horas por  dia. Estou na rua desde 2000, vou lá e bato esta tecla, agora...Quando eu me transformo num militante político, que é assim que eu me defino, eu abro um estabelecimento comercial e ponho uma placa do meu partido,não sei se vale a pena determinar aqui para não misturar as coisas, eu recebo lá umas porradas, né? O policial vai lá, os vizinhos vêem uma placa vermelha dentro do meu estabelecimento comercial,como é que pode, né? Durante 18 anos que trabalhei no comercio eu nunca tirei a placa, então quando fecho aquele negócio não tem como eu descontinuar disso, porque eu tenho a convicção que ao optarmos pela disputa democrática, alguns pensamentos que revelam desde do início da década de 70, eu não estive dentro mas acompanhei a teoria pelas pessoas que convivi,então a partir daí mudou a vida em mim, a última situação foi em Caragua, vc tem em 1980 e também em New York, isso é arriscado para o pensamento democrático

 

Maíra – Hoje você é apartidário?                          55

 

Rodrigues – Sou partidário independente, sou filiado aos partidos dos trabalhadores desde 1989, mas desde 80, o movimento das diretas e as greves dos operários têm uma relação comigo porque eu me identifico com o símbolo brasileiro a partir daquela greve dos metalúrgicos.Porque eu não me via, eu era pobre, do povo pobre e não me via como tal. Tem umas passagens lá, a empresa que eu trabalhava era um comércio de metais, a gente ia entregar as mercadorias e o cliente estava fechado e eu ficava com raiva por ter que fazer a entrada de devolução, mas quando eu fui lendo o jornal, eu fui entendendo aquelas coisas. Tem uma passagem que fala assim, um trabalhador da wolkswagem que vai para a favela e senta na sua cama que também é a mesa (suas coxas) e a cadeira que ele come toda pouca mobília num único cômodo. E a gente questiona, como que uma empresa tem um funcionário com um certo conforto e eles  fazem o mesmo produto nesta questão,quem faz o produto aqui no Brasil vive nesta penúria. A partir daí fui abrindo umas paredinhas e veio umas manifestações mais explicitas,umas negações, aí fechou-se o ciclo.

 

Ivan – “Talvez não tenha ficado claro para a Maíra como você faz a abordagem política com as pessoas, eu imagino (se eu tiver errado você me corrige ou completa) imagino que você faz como fez comigo pela primeira vez: eu estava ouvindo você terminar de tocar o bolero e quando vc terminou de tocar, tomou a iniciativa e começamos a conversar (não entramos direto na política) e aos poucos você me trouxe para o diálogo político, imagino que é mais ou menos assim sua abordagem, né?”

 

Rodrigues – “Eu tive um pouco de dificuldade nestes anos, muitas pessoas dizem, você não vai ganhar nada tocando para as paredes, mas isso nunca deixou de eu fazer. Agora, na periodicidade das eleições em dois e dois anos, oficializa-se três meses de campanha, nesta época eu dou mais ênfase porque o ouvido já está  pré disposto, já há uma maior predisposição. 

 

Rodrigues – “Atualmente o Homem não faz nada que não tenha relação com seus interesses, a questão econômica pega do homem mais simplório da face da Terra até o mais rico, as vezes não sabem nada além de defender seus próprios interesses, está aí minha satisfação de estar neste sistema que eu me meto, sistema de independência. Vejo a confluência do produtor, da matéria prima, da manufatura, da prestação de serviços, todos estão afim de comprar e estes empreendimentos não podem surgir do nada sem investimento público, logo está tendo neste momento, uma relação, uma parceria entre a produção e o que se recebe no caixa público em real, eles podem fazer isso enquanto eu não tiver o poder legislativo dividido em partes,conservador e progressista, onde o conservador é dominante, o que tem hoje é um acordo, onde o conservador excede o mínimo, mas se o poder executivo quiser fazer alguma coisa mais radical ele será derrotado porque não tem força de voto e a universidade privada de ensino superior não tem como abordar esta questão, porque os suplentes alunos não conhecem seu estabelecimento.Resumindo, as vezes o sujeito quebra o galho do outro, mas sempre visando sustentar determinada posição.”

 

Ivan – “Isso da uma discussão boa, “n” horas..mas sugiro voltarmos para a rua, vamos sair do legislativo e da academia e voltar para a rua, você conhece outros pares, ou artistas de rua que fazem a mesma abordagem (política) que você? Qual é sua relação com os artistas de rua da região?”

 

Rodrigues – “Olha, até agora eu não encontrei ninguém que faz o que eu faço. Não digo que eles são avessos a questão política, mas não fazem esta abordagem. Quando eu venho para rua fazer este trabalho é que eu venho a me relacionar com a sociedade economicamente ativa, porque esta sociedade é muito individualista, as ações são guiadas pela consciência não por uma adesão para quebrar o galho do compadre.O cidadão regularmente sai da sua casa, pega seu carro ou coletivo,vem cumprir sua carga horária, produzir, dirigir empresa ou funcionário,fazer negócio. A margem disso existe uma parte da sociedade brasileira que nada faz e impede o desenvolvimento, isso serve para sustentar a posição mesquinha do conservador.

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No final da entrevista ele montou seu espaço trivial de trabalho e nos emocionou tocando a “Internacional Socialista”...

 

Pinga-Fogo: parte final da entrevista

ai 

 

Um músico: Chico Buarque


Uma personalidade internacional de todos os tempos: Nelson Mandela  


Uma mulher: Luiza Erundina 


Uma personalidade nacional de todos os tempos: Lula 


 Uma utopia: Socialismo 


?Do que tem Medo: Assassinato 

 

 Estimularia algum(a) filho(a) ser artista de rua: SIM 


O que é liberdade para você?: Consciência.